Passou mais de tantas mãos cheias de anos desde o teu desaparecimento, propositado (devo acrescentar)... é incrível como fui capaz de me absorver naquele breve momento do teu eclipse, que me esqueci de acenar ao tempo que passava.
Se me pudesses ver agora: desfiz as tranças e cortei o cabelo, mudei de trajes, cresci uns quantos centímetros; trabalho no hospital da zona como enfermeira, tenho dois filhos pequenos. Fui me transfigurando nestes instantes, que agora adultos, já são 20 anos!
Deixei-me sozinha na lua. Para crescer disse adeus, para crescer fugiste...todas as noites baloiço-me ao vento e finco os olhos lá onde as estrelas são sombras de imaginação, aceno a quem lá deixei e ela responde-me com um sorriso, a tua "gaiata"...! Os sons ondulantes do que dissemos, as frases desfraguementadas de uma recordação já intelectualizada e não pura. Tu dizias: "Tão depressa não! Ainda te magoas!", mas eu era obstinada e fazia-te correr, o mais que conseguias e podias, seguias-me cegamente, porque temias por mim e eu aproveitando-me disso, levava-te a todos os meus recantos.
Quando eramos pequenos, parávamos sempre junto ao poço, com os teus 3 anos de avanço, ganhavas-me em altura, pegavas-me ao colo (tinhas medo que caísse) e com os seixos com que enchias os bolsos das calças, lançavamo-los de uma vez só, diziamos que era a chuva a cair... Escotando os sons do mundo submerso, tão nossos como alheios, eramos felizes!

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