quinta-feira, dezembro 14, 2006

I

Sentado na esplanada de um café, algures em Lisboa, pouco me interesso por lugares exactos(de qualquer forma sempre tive uma estranha dificuldade em decorar e sobretudo explicá-los a outrem)procurava encontrar a concentração necessária para corrigir a resma de testes que trouxera comigo. De facto, esta era uma das irremediáveis tarefas que me enchiam o peito de ociosidade, ainda que fosse professor de matemática e ainda que o universo de respostas possíveis se convertesse num só valor exacto, apesar dos múltiplos caminhos, a solução só uma. Lembro-me de no liceu o professor Jeremias, professor de Filosofia, que sempre reivindicou a pouca versatilidade da matemática, revoltando-se contra o cariz da lógica formal, aquela necessidade absurda da conclusão derivar veementemente das premissas, como se "na vida tudo derivasse de um só fio da grande trama". Gostava de se perder em longos discursos e queixumes contra os professores de matemática, os causadores do pouco ânimo com que as gerações mais jovens encaravam a vida...Enfim, de resto este seria o seu único desgosto, homem pouco caprichoso portanto. Imagino o que diria o pobre coitado se hoje soubesse que o seu melhor aluno se tornara num desses "predadores da felicidade", imagino como me acusaria de aniquilar o espírito analista dos pobres seres recém chegados, renegando-lhes o gosto por perguntar e impingindo-lhes um "não sei que número de fórmulas intragáveis" e que em nada são úteis para o desenvolver racional humano. De certo que já se deram conta da minha fenomenal capacidade de divagação, num instante a fórmula fundamental da trigonometria para no exacto segundo depois indagar sobre os devaneios do professor Jeremias...Ai Amadeu, Amadeu!...Aí está, nome que sempre desgostei e que no entanto tenho de hipocritamente ostentar perante os 6,800,000,000 habitantes terrestres; é este amaldiçoar de identidade que talvez me tenha tornado num tão conformado ser. Quando dei por mim já a vida me convencera a viver nela,sem que eu sequer me opusesse, acabando por me sentar aqui, vai se lá saber porquê, acabando por me tornar professor quando esse nunca fora o meu desejo, foi o que a ocasião fez de mim...e quem fez a ocasião?
Reparo agora na rapariga em frente da minha mesa: debate-se com as ultimas gotículas de sumo que se recusam a fluir pela palhinha ("palhinha" palavra que de tanto pronunciar, jamais escrevera) acima, partilha olhares impacientes com o relógio, que desliza num pulso esguio, move inconformavelmente a cabeça para um lado e outro, talvez esperando a imagem que não surge numa paisagem tão banal, de certo espera alguém. Chama o empregado, vejo, pelos gestos já universais, que pede pela conta, mais uma vez a impaciência perturbadora, os dedos que torcem e retorcem (como és ágil doce mulher!) o tempo (há quanto tempo já não estás aí?!), paga, vai se embora. Se esperasses por mim, se ao menos houvesse quem esperasse por mim... e nisto estava eu, com a tal resma de testes para ver e os quais não via...Levantei-me também, talvez procurar novo sitio para devidamente exercer a minha função (desculpa escusada, assim como escusada fora a desculpa que a mim mesmo incuti quando decidi para aqui vir, supostamente, para "corrigir testes"), talvez segui-la, e porque não? olho de novo em relance para a mesa já abandonada, onde Ela estivera um bilhete, uma mensagem: "Enquanto te esperava morri! toco a minha valsa de despedida hoje à noite, às 21:30, no CCB". Intersectar o teu pedido ao teu interlocutor desaparecido ou deixar as rédeas ao destino? como se eu acreditasse em tal...Levo-o comigo: irei hoje ao CCB.


2 pegadas:

Mariana disse...

O que acontece depois?? conta conta! Fiqeui curiosa:O não percam o proximo episódio porque nós tb não!=)

Amor, repito e repito, adoro ler o que escreves xD

Anónimo disse...

concordo com a Mariana! estou mortinha por saber o q vai acontecer depois, ate pq os teus textos prendem-me do principio ao fim ! Gosto tanto de ler o q tu escreves =D **