Tenho dois autocarros que me levam da estação para casa: o 188 e o 189. Antes de mais convém "pintar" este pequeno relato de cores, cheiros e formas que lhe são característicos, pois bem: ao sair da estação da Parede existe um pequenino largo onde ficam as paragens de autocarro e é também para lá que me dirijo todos os dias. Existem quatro paragens a que chegam vários autocarros; são paragens vulgares, com aqueles bancos característicos (sempre lotados), todos as três à sombra, já que são cobertas por grandes arvóres, que assim as protegem do sol. No entanto, a quarta paragem, onde pára o meu autocarro, não só fica deslocada das restantes, como também é a mais pobre de todas! Não é nada mais, nada menos, que um "mini passeio" que aflora no meio do largo alcatroado, sem banco, sem sombra, que ostenta uma placa de metal com um número inscrito: 188.
Faz sol lá fora, saí de casa bem cedo para tratar de burocracias enfadonhas (que não me parecem deixar em paz!), são 10:30 quando finalmente chego à estação. É só mais um pouco e estou em casa, o meu corpo não suporta bem o calor, estou esfomeada e cheia de sede, para além do mais preciso de me sentar, afinal de contas a viagem de comboio tinha sido feita toda de pé! Desloco-me para o tal largo e sem surpresas constato que não há um único lugar onde me possa sentar. "Bom, só espero não ter perdido a camioneta!", penso eu, pensamento legítimo, aqui os autocarros só passam de meia em meia hora, pelo menos os únicos que me servem. Mas, irremediavelmente o dito cujo já partira, o próximos só às 11:15. Espero. Espero. Espero! Ando para cá e para lá, desconsolada, quase estonteada pelo calor, com fome, cheia de fome, com sede, com muita sede. Todos sentados, eu de pé. As vozes daquela gente entram-me desordenadas, atropelando-se umas às outras pelo meu canal auditivo: alguém se queixava dos rins, alguém queria deserdar os filhos e ainda outro alguém desejava saber qual o autocarro a apanhar para o centro de saúde...e eu que só queria chegar a casa!
Por fim, lá surge ela aos solavancos - ah! a visão do paraíso! até que enfim. - todas as almas recolhidas à sombra se precipitam para o "mini passeio" que de um momento para o outro deixa de ter lurgar para mais ninguém. Forma-se a fila mais desorganizada de sempre, não percebo se começa pela direita, se pela esquerda, se pelo meio. Desisto de perceber, deixo-me ficar ao acaso. Mas, o autocarro ainda aqui não está porquê? estava mesmo a entrar no largo, o que é que aconteceu? Então reparo que do meu lado direito, mesmo encostado a esta ilha preechida alguém se lembrou de estacionar o carro, bloqueando a entrada. Como eu, todos protestam, a diferença é que eu interiormente e eles exteriormente. Gera-se uma algazarra pitoresca, as senhoras, todas elas com quadruplo da minha idade, com a mão na anca começam:
- Então mas esta gente não sabe que não se pode estacionar aqui?!
- Havia do autaocarro lhe passar o carro " a ferro" ! De certeza que da próxima nunca mais cá o punha.
- Oh Homem! Tire lá daqui a poracria do carro que eu quero-me ir embora, tenho mais que fazer!
- Haviam era de chamar a polícia!
Passados uns 15 minutos o dono do tão praguejado carro aparece, vinha carregado de sacos do "Pingo doce", mas nem isso o fez escapar da fúria daquelas mulheres, foi se embora o mais depressa que pôde. Resolvido assunto, era de esperar que a camioneta se aproximasse e nós podessemos embarcar, mas ela não se mexe, permanece imóvel ali e ninguem percebe porquê! O motorista anda de um lado para o outro e sem o poder ouvir adivinho-lhe a raiva pelo gesticular dos braços. Alguma coisa tinha acontecido...
Nós todas ali a torrar ao sol, impacientes, desejando quase perfurar as portas daquele vaículo e tomá-lo à força. De novo alguém começa:
- Olha, olha, olha! Agora não se mexe porquê? que falta de respeito, onde é que isto já se viu?! Tá aqui uma pessoa à espera, ao tempo que já deviamos tar lá dentro. Ainda tenho de fazer o almoço! Pior, tenho problemas de circulação não posso tar aqui...
- Agora tá a falar ao telemóvel, tá bonito tá, nem hoje saímos daqui!
- Vão "mazé" chamar uma parteira que o homem está a parir, olha lá a cara dele...
Sem mais nem menos o camionista abandona o autocarro e desaparece.
- Lá vai ele. Parece um foguete!
- Filho da puta!
Sem dúvida que tinhamos chegado ao pior grau de insatisfação daquelas senhoras, que cada vez faziam menos cerimónia quanto aos adjectivos a utilizar.
Estou cheia de fome não aguento mais e dirijo-me ao café mais próximo. Peço uma sandes de queijo, mas para variar põe sempre manteiga na sandes. O meu português não poderia ser mais claro, uma sandes de queijo não é uma sandes de queijo e manteiga! Enfim... quando volto de novo para o largo vejo que o 189 havia acabado de chegar; embora também possa apanhar este autocarro, o facto é que mesmo a paragem mais próxima da minha casa me obriga a percorrer uma distância ainda considerável até lá chegar...contudo, já sem paciência lá vou eu.
O autocarro está apinhado, mesmo para chegar a uma zona onde teria de ficar em pé invariavelmente era um tormento. Aquilo fazia lembrar uma feira, mas uma feira onde se vendiam conversas. Durante aquela viagem as coisas mais inacreditáveis aconteceram: mais que uma vez houve alguém que gritou para se calarem todos, que estava um "barulhão" insuportável, houve alguém que perdeu um saco de nabiças e andava de pessoa em pessoa a perguntar se o tinha visto, eu que estava de pé, e apesar de ser a mais nova dali, desiquelibrava-me constantemente, caíndo não sei quantas vezes no meio do chão.
Quando finalmente cheguei à porta de casa, ansiosa por lá entrar, sentir aquele fresquinho agradavel que só a minha casa consegue ter, ao perpara-me para rodar a maçaneta, percebo que não só não está ninguem em casa como a porta está trancada! Eu não acredito, estava tão próxima...ainda procuro os meus avós pelo quintal. Não, não estão mesmo em casa...
Ligo para o meu avó, ele diz-me para esperar que vem-me abrir a porta; poucos segundos depois aparece, vinha triste, apagado, o irmão tinha acabado de falecer.
O meu tio morreu!
quinta-feira, julho 12, 2007
Lar doce lar
Rabiscado por Apple à(s) 12:03 p.m.
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3 pegadas:
linda....adoramost...podes contar sempre com o nosso apoio e com o nosso amor...és a nossa menina...nós estamos aqui smpre pra ti...podes smpre contar cmgo e com todos aqueles que te apoiam...nós prometemost...que nunca te vamos deixar de proteger para sempre....AMAMOS TE...tê coragem linda....nós tamos aqui...bjinhos doces mana...
Pois é Cristininha, o Miguel tem toda a razao! Nós vamos estar sempre aqui para tudo, da mesma forma que tu estás cá para nós! Podes sempre contar connosco nas boas e nas más alturas. Nunca te vamos deixar sozinha! É para isso que servem os amigos, para ajudar e dar apoio sempre que é preciso. E é isso que nós vamos fazer! =)
Amo-te tanto, minha querida * Nunca te esqueças disso!
Sei que numa altura como estas, nada do que as pessoas dizem ajuda realmente, na prática. Tu sabes que podes contar connosco, os teus amigos, para tudo. Aí sentes aquele calor tão intenso, vês que as pessoas se preocupam e que te querem bem, e de repente não te sentes tão sozinha. Mas depois vem a pergunta: "ajudar em quê? No que podem eles ajudar?" E ficas ciente que a dor que atravessas, nós nunca a vamos sentir e ficas triste, vais-te abaixo. Não porque querias que sentissemos o que estás a sentir, mas porque querias que te compreendessem e não só dizerem palavras bonitas para te pÔr bem... Mas não te preocupes, meu anjo, muitos de nós podemos não saber, mas compreendemos. E aí apercebes-te no que poderemos fazer para te ajudar. Vais-te aperceber, se é que já nao to aconteceu, quando deres o teu primeiro sorriso. Quando te aperceberes que a vida é bonita de ser vivida, apesar dos muitos dias longos e tristes que possamos atravessar =)
Quero-te bem minha querida. Amo-te muito*
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