sábado, janeiro 26, 2008


Já não escrevo.
Limito-me a vaguear o ordinário
E já caminhando, copiando-me, agora
Como outrora, onde há tanto para dizer,
Pronuncio o silêncio do dito e não dito,
Como do por dizer: Nada!
Já não sei escrever!


É como na neblina pairando,
Tempo incerto...
Ficaram-me os sonhos na terra de ninguém,
Soltaram-se todos e tão de repente...
Mas porquê?

quarta-feira, dezembro 19, 2007


Para: Olívia, a bailrina.

Rua do tempo imóvel de piratas e marujos.


De: Tomás, o guardador de rebanhos.

Rua das memórias irrequietas, montadas em cavalos de palha.



O que o "Monte da Forca" nos contou, jamais narrei a ninguém. Ficou guardado em mim como o momento em que tu e eu superámos a densidade do universo: meu deus, fomos tudo!
Recordo ainda com fulgor nostálgico o dia depois, em que ludribriavamos o sermão austero que tanto os meus como os teus pais nos haviam pregado...de resto, tudo mais se empalideceu.
Eras como os dentes de leão daquela serra, a brisa suava-te como um marcha pelo mundo inteiro. Lembro-me de tantas vezes olhar nos teus olhos e neles ver espelhada a distância de terras alheias. De cada vez que te via, tinha o cuidado de fixar todo o teu gesto e ser, todas as vezes eram como se fossem a última.
Hoje se te visse pedir-te-ia para montarmos o nosso cavalo mágico, feito de palha, e calvagarmos por todas essas terras que tu criaste e eu vi nos teus olhos.

Assinado: Tomás, o guardador de rebanhos.

domingo, dezembro 16, 2007




"QUEM QUISER ME CONHECER QUE ME LEIA,

MAS QUE ME ENTENDA!"



CITADO POR: MIGUEL TORGA.

quarta-feira, dezembro 12, 2007

THE END

FORAM 120 "POSTS", FORAM TANTOS, MAS POUCOS QUE NÃO FOSSEM PARA ESSE MEU OUTRO ALGUÉM QUE JAMAIS SE MANIFESTOU. MEU DEUS, AO MENOS QUE APRENDESSE A SER DIFERENTE E CONSTANTE, SERENA, PERFEITA!
FALEI SOZINHA E PARA PARTE INCERTA, SEMPRE SÓ. FORAM DEVANEIOS, AFINAL DE CONTAS, SOMENTE DEVANEIOS, ABSURDOS!
A CADA DIA QUE PASSAVA, ESTE ESPAÇO GERMINAVA COM UM NOVO INTUITO, NEM QUE FOSSE A MOTIVAÇÃO DE ESCREVER PARA QUE NO SILÊNCIO ESCUTASSE MEU SER.
AGORA PASSADAS TANTAS LETRAS, UMAS SENTIDAS, OUTRAS DISFARÇADAS, OUTRAS INVENTADAS, ESQUECEU-SE-ME A VONTADE DE ACORDAR O DESEJO DE PERPETUAR A CHAMA ACESA DE ENCONTRAR "AQUILO" EM MIM!
"AQUILO"? NÃO IMPORTA. SOU, CRONICAMENTE, DESAJEITADA, TRISTE E SÓ. E PARA QUÊ PERMANECER NA ÂNSIA? SOMOS TODOS TRANSPARENTES.
VOU GUARDAR TODOS ESTES TEXTOS E QUANDO ACABAR DETERMINAREI O FIM, OU TALVEZ NÃO... MAS, HOJE DIREI QUE SIM!

terça-feira, novembro 13, 2007

Lágrimas de Vidro


Escorrem-me lágrimas de vidro pela alma. Quando batem o solo quebram-se em estilhaços sinuosos e agudos; Cada muito caído é um fragmento aquoso de mim, como uma aguarela amassada às mãos do artista descontente. Um dia vou pairar sobre a lua e chover àgua de vidro, nesse dia todos saberão de mim e molhados, perguntaram: "De onde vem esta água gelada que me arranha o coração?"

quinta-feira, novembro 08, 2007

ATÉ AO DIA DA MINHA MORTE

Escuto os violinos que cantam e naquelas cordas soa uma voz que me embala. As notas juro-as ver correr como se fugissem apressadas, já nem as vejo. E ainda assim, não preciso que sejam minhas para as sentir brotar-me por entre cada pedaço meu. Tomo-as como minhas e elas como se eu delas fosse.
Não sei sentir senão tudo, numa sinestesia exaltada, porque cada compasso é o mundo inteiro...
Dou por mim ansiando cada momento como derradeiro, tenho sede de viver!
Fico por aqui por toda a eternidade até ao dia anónimo da minha morte!



( Música"Grosse Fuge" De Beethoven)



HOJE DECIDI QUE O PENSAMENTO SERÁ AZUL. AZUL COMO O LÁPIS LAZULI!

sábado, novembro 03, 2007

"Copying.Beethoven": Beethoven Symphony 9 (Movt.4)

Fecha os olhos e sente...

quarta-feira, outubro 31, 2007

SÓ.


Sinto que tenho de escolher cada vogal e consoante para a tua história, como se cada uma fosse moldada não mais do que em prata ou ouro. As tuas palavras sempre bordas e tornadas peças únicas; escolhendo-as , cantavas a tua alma e as palavras mais que faladas, saiam-te em notas harmoniosas, ou, como se diz: com conta, peso e medida.
O teu "volto já" falacioso faz-me, no entanto, recordar-te por todos os dias e os quadros que pintas-te põe-me falando contigo, sem que me oiças, sem que eu me oiça, sem que existas...Com o tempo, fui-te fabricando a meu gosto, tanto que já nem sei se és o mesmo. Por vezes, distraído, revelo, a quem me pergunta, que passei a tarde à conversa com um amigo; a gente do prédio olha-me de soslaio, dão a tal palmadinha de compaixão e murmuram em silêncio: "Coitado, já é velho, o que é que se pode fazer?!". Espanta-me tanta ingenuidade pacóvia! Somente me atrevi a atentar contra a implacável solidão. A loucura é o beijo dos sonhos, antes ela...
Cedi as tuas "bailarinas" a uma galeria de arte. Sei que se aqui estivesses jamais o tolerarias, queria-las todas na tua existência pacata e, ainda que nunca tenhamos conversado acerca de tal, também sei que as tinhas tão mais do que meras figuras, geradas por pinceladas, animadas por tintas sobrepostas e interpretadas à luz das funções cognitivas humanas. Saiam-te dos dedos e germinavam na tela, eram-te como deusas veneradas, a que por amor, fazias-te fiel escravo. Bailavam por todo o teu corpo, eram-te o fluído animado que te bombeava o coração. Eu sei...por isso, escutava-te em silêncio, quando me dizias: "Não as criei, criaram-me. Criar-me-ão até ao dia da minha morte!".
E assim foi, sem que tu te podesses apreceber, saltou-te uma do papel e, pintando-se de cores humanas, fez-te crer na vida eterna: quebrou-te o ócio, determinou um tal bailado com passos de amor - os membros entrecruzam-se em paixão, um corpo, dois corpos, um só; a respiração que salta e se transfigura numa melodia ritmada de suspiros céleres, a que se rende o coração, os olhos que se fitam e falam palavras secretas - a que o teu geito lasso se amedrontou. De facto, fez-te bailar...
Vi-te partir, todos os dias, para o conservatório (consegui com que te deixassem assistir às aulas), quando regressavas tinha de te ajudar a trazer todos os oito ou dez retratos que lhe haverias feito em duas horas. De seguida, trancavas-te no quarto porque, como me acabaras por explicar: "é impossível conseguir, sequer, captar um traço suave do seu gesto, tudo é tão perfeitamente harmonioso, que os meus pincéis se definham só por tentar". Ela era muito bonita e tu, meu filho, muito ingénuo!
Os traços inacabados, desordenados e grosseiros que acreditavas ser, faziam-te imaginar que o entendimento claro de ti, seria concretizado na pintura alheia. Nunca te deste ao trabalho de compreender que seria, apenas, necessário recuares alguns metros para veres que, afinal, o teu quadro abstracto era meramente uma paisagem impressionista. Ter-te-ias apreciado tanto como eu o fiz!
Um dia, a bailarina fustigou-te e antes que o teu corpo apaixonado se desse conta de que dançava sozinho, já ela se tinha desvanecido.
Estavas com muita febre, nesse dia. Quando me apróximei, miravas-lhe o rosto, pendurado do lado oposto. Pareceu-me que repetias palavras sem nexo (tu, que nunca foste de as desperdiçar!), contudo, ao fim de alguns instantes compreendi o discurso:
"Estupidamente creio sempre no teu nome como um vácuo sonoro. Ingenuamente, julgo lembrar-te, somente, em versos dum pretérito-mais-que-perfeito. A tua figura é uma memória tão já lembrada que nem em mim se torna real. E, sendo tudo tão serenamente doloroso quanto poderia desejar, nada poderia ser tão penoso: é ver-te diante de mim, real, soberba e distante; é ser-te como o vento - cru, só e comum.". Falando-te desesperadamente, não suportando o teu sofrimento ( e tu nem me escutavas), pregeui-te um estalo, capaz de gravar a minha mão na tua face. Vi-te escorrer uma lágrima, quis apróximar-me, empurraste-me e foste-te embora, num tal "volto já". Ainda corri as escadas, mas em vão, aos poucos superaste-me a vista: perdi-te o rasto. Perdi-o para sempre...
Quando te recuperei, já vinhas pálido e sem vida, abraçado ao corpo inanimado da bailarina.



sábado, outubro 06, 2007


De manhã, de embalo, deambulava pela rua com as horas. Horas que o acompanhavam e o preenchiam aos olhos de quem se tornava conhecido: às sete era um "bom dia, Sr. Joaquim!", a meio da manhã um "Que bom vê-lo, Sr. Joaquim.", à tarde um "Adeus, Sr. Joaquim", à noite um silencioso boa noite de destinatário e remetente análogos. Os lugares tornavam-o distinto e sempre inacabado: na padaria era o "Sr. Joaquim", no café da esquina o "Joaquim, camarada!", no trabalho "Dr. Joaquim"; sem tempo para escolher entre Senhor, Camarada ou Doutor, era à penumbra de todos aqueles que o moldavam que Joaquim se sentia como um esboço cinzento e esborratado... Os traços já gastos de tanto serem apagados, a folha tão amachucada, tão fina e riscada; dali jamais sairia uma obra-prima! E Joaquim olhava para os olhos da gente que passava só para que, enfim, pudesse enxergar, por completo, as obras de quem invejava ser "acabado". Mas, entre "Joaquins de Almeida" , entre "Doutores" e "Senhores" só havia um mundo de mudança e as horas silênciosas que desciam consigo, a rua tão já caminhada, eram o único traço definitivo que pudera encontrar!

quarta-feira, outubro 03, 2007

Diários

"If I lay here If

I just lay here

Would you lay with me and just forget the world?"






22 DE AGOSTO DE 2001



Não basta amares-me na maioria dos dias, era preciso amares-me permanentemente, até nos instantes em que me gritares de ódio (odiares-me, amando-me, seria tão bom consolo; odiando-me, amando-me, serias meu cativo)!
Sei quantos sabores escondem os teus lábios, provo-os audazmente. Não gosto de prová-los ao dizeres-me que"gostas" de mim, nem sequer quando dizes "gosto muito"... Que sabor amargo e aflito!
Gostares de mim não chega, se não for eu de quem gostes mais! Não quero ser especial, se não for única!



Olívia.



"All that I am
All that I ever was
Is here in your perfect eyes, they're all I can see"





22 DE AGOSTO DE 2001



A primeira página é sempre um quebra-cabeças colossal; o ínicio deve ser cuidadosamente estudado porque até o mais ínfimo dos deslizes pode comprometer todo o objectivo, objectivo esse que será de te poder falar e de me fazer falar...
Não percebeste porque foi que te roubei o caderninho que tinhas junto da tua mesa de cabeceira, eu sabia, sim, que não tinhas nada lá escrito( não me julgues tão curioso), a causa foi tão mais nobre do que possas imaginar!... Precisei roubar um pouco de ti, para que, enfim, te podesse alcançar. A nossa presença tornou-se um estreito sem passagem: e se te toco não sentes, e se te falo não me escutas, e se te abraço não te sinto, e se te beijo foges, e se me beijas...
Gostava do tempo em que me olhavas como um arco-íris, sabias-me cada cor, da esquerda para a direita, da direita para a esquerda...Agora o que tens para olhar? Azul? Lilás? nem vermelho... sou um nevoeiro extenso que te sufoca. Eu sei!
Não te posso amar todos os dias, nem tu a mim. Há dias em que o cansaço me arrasta até um ponto de exaustão e tudo me parece alheio; nesses dias, vagueio, como que sem rumo, e não é a ti por quem chamo...Desculpa, mas há dias, em que simplesmente tenho de me procurar a mim, somente! Das vezes que estou intacto, ainda que na maioria delas goste de ti, creio que me farto de te manter firme e sóbria. Se soubesses como é difícil ter a tua atenção... Foges-me insesantemente, por entre as nesgas dos dedos, que descobres ( vai se lá saber como!), nas minhas mãos cerradas. Quase que chego a esmagá-las para poder comprimir todo o espaço que a matéria da minha carne não preenche!

Esse teu ar taciturno e insatisfeito cansa-me...não posso continuar a respirar por ti!

E, embora assim o seja, recuso-me a desistir porque no fundo sei que gosto demais de ti, Olívia.

E sei também que, muitas das vezes em que te encontro absorta face ao infinito, é porque te destraiste e esqueceste-te que me amavas, sei que te apaixonas muitas vezes, e que muitos dos teus sorrisos não são para mim, não podem ser sempre não é?
Então, de todas essas vezes, gesticulo e faço piroetas, só para que voltes a olhar para mim, e tu, sua distraída, voltas!
Agora, vamos supor, que estarei desmanchado, partido em cacos, com que força remarei contra corrente?!
Preciso que voltes, que voltes inteira e sem o infinito de que és cercada; preciso que voltes, mas entende que não te posso amar a todo e qualquer instante, que tenho a mão dorida de tanto a apertar; preciso que me beijes e tenhas consciêcia disso; preciso que me reúnas todos esses bocados de mim "pontiagudos" e que coles, devagarinho...Está bem?



Tomás.





"I don't quite know
How to say
How I feel "




23 DE AGOSTO DE 2001



Gostava de perceber tanta coisa nesta relação... Afinal de contas porque é que estás, constantemente, a chamar-me distraída?

Tenho ciúmes de todos aqueles que te tocam!



Olívia.



"We don't need
Anything
Or anyone"






23 DE AGOSTO DE 2001



Sei que, agora mesmo, não é em mim que pensas, de facto nem te deste conta de que continuo no chão, desfeito.
Tens sempre um comportamente tão exemplar e os teus vestidos nem esvoaçam com o vento, é sempre tudo tão impacável! E , afinal de contas, como é possível não entenderes que para entrar nesse teu quarto obscuro só eu? Pára de procuara seja quem for, já encontraste! Idiota!
Vou me fartar de esperar e vou aceitar ajuda de quem vier, garanto-te! Não ias gostar não é?

Porra, amo-te!



Tomás.


"If I lay here
If I just lay here
Would you lay with me and just forget the world?"

sábado, setembro 29, 2007

I
A criança que fui chora na estrada.
Deixei-a ali quando vim ser quem sou;
Mas hoje, vendo que o que sou é nada,
Quero ir buscar quem fui onde ficou.

Ah, como hei-de encontrá-lo? Quem errou
A vinda tem a regressão errada.
Já não sei de onde vim nem onde estou.
De o não saber, minha alma está parada.

Se ao menos atingir neste lugar
Um alto monte, de onde possa enfim
O que esqueci, olhando-o, relembrar,

Na ausência, ao menos, saberei de mim,
E, ao ver-me tal qual fui ao longe, achar
Em mim um pouco de quando era assim.

II

Dia a dia mudamos para quem
Amanhã não veremos. Hora a hora
Nosso diverso e sucessivo alguém
Desce uma vasta escadaria agora.

E uma multidão que desce, sem
Que um saiba de outros. Vejo-os meus e fora.
Ah, que horrorosa semelhança têm!
São um múltiplo mesmo que se ignora.

Olho-os. Nenhum sou eu, a todos sendo.
E a multidão engrossa, alheia a ver-me, Sem que eu perceba de onde vai crescendo.

Sinto-os a todos dentro em mim mover-me,
E, inúmero, prolixo, vou descendo
Até passar por todos e perder-me.

III

Meu Deus! Meu Deus! Quem sou, que desconheço
O que sinto que sou? Quem quero ser
Mora, distante, onde meu ser esqueço,
Parte, remoto, para me não ter.

FERNANDO PESSOA

"AS GRUTAS" DE SPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSEN



O esplendor poisava solene sobre o mar. E- entre as duas pedras erguidas numa relação tão justa que é talvez ali o lugar da Balança onde o equilíbrio do homem com as coisas é medido- quase que me cega a perfeição como o sol olhando de frente. Mas logo as águas verdes em sua transparência me diluem eu mergulho tocando o silêncio azul e rápido dos peixes. Porém a beleza não é solene mas também inumerável. De forma em forma vejo o mundo nascer e ser criado. Um grande rascasso vermelho passa em frente de mim que nunca o antes imaginaria. Limpa, a luz recorta promontórios e rochedos. é tudo igual a um sonho extremamente lúcido e acordado. Sem dúvida um novo mundo nos pede novas palavras, porém é tão grande o silêncio e tão clara a transparência que eu muda encosto a minha cara na superfície das águas lisas como um chão.
As imagens atravessam os meus olhos e caminham para além de mim. Talvez eu vá ficando igual à almadilha da qual os pescadores dizem ser apenas água.
Estarão as coisas deslumbradas de ser elas? Quem me trouxe finalmente a este lugar? Ressoa a vaga no interior da gruta rouca e a maré retirando deixou redondo e doirado o quarto de areia e pedra. No centro da manhã, no centro do círculo do ar e do mar, no alto do penedo, no alto da coluna está poisada a rola branca do mar.
Desertas surgem as pequenas praias.
Eis o mar e a luz vistos por dentro. Terror de penetração na habitação secreta da beleza, terror de ver o que nem em sonhos eu ousava ver, terror de olhar de frente as imagens mais interiores a mim do que o meu próprio pensamento. Deslizam os meus ombros cercados de água e plantas roxas. Atravesso gargantas de pedra e arquitectura do labirinto paira roída sobre o vento. Colunas de sobra e luz suportam céu e terra. As anémonas rodeiam a grande sala de água onde os meus dedos tocam a areia rosada do fundo. E abro bem os olhos no silêncio líquido e verde onde rápidos, rápidos fogem de mim os peixes. Arcos e rosáceas suportam e desenham a claridade dos espaços matutinos. Os palácios do rei do mar escorrem luz e água. Esta manhã é igual ao princípio do mundo e aqui eu venho ver o que jamais se viu.
O meu olhar tornou-se liso como um vidro. Sirvo para que as coisas se vejam.
E eis que entro na gruta mais interior e cavada. Sombrias e azuis são águas e paredes. Eu quereria poisar como uma rosa sobre o mar o meu amor neste silêncio. Quereria que o contivesse para sempre o círculo de espanto e de medusas. Aqui um líquido sol fosforescente e verde irrompe dos abismos e surge em suas portas.
Mas já no mar exterior a luz rodeia a Balança. A linha das águas é lisa e limpa como um vidro. O azul recorta os promontórios aureolados da glória matinal. Tudo está vestido de solenidade e de nudez. Ali eu quereria chorar de gratidão com a cara encostada contra as pedras.

Sentimentos (não) Inteligíveis


Passou mais de tantas mãos cheias de anos desde o teu desaparecimento, propositado (devo acrescentar)... é incrível como fui capaz de me absorver naquele breve momento do teu eclipse, que me esqueci de acenar ao tempo que passava.
Se me pudesses ver agora: desfiz as tranças e cortei o cabelo, mudei de trajes, cresci uns quantos centímetros; trabalho no hospital da zona como enfermeira, tenho dois filhos pequenos. Fui me transfigurando nestes instantes, que agora adultos, já são 20 anos!
Deixei-me sozinha na lua. Para crescer disse adeus, para crescer fugiste...todas as noites baloiço-me ao vento e finco os olhos lá onde as estrelas são sombras de imaginação, aceno a quem lá deixei e ela responde-me com um sorriso, a tua "gaiata"...! Os sons ondulantes do que dissemos, as frases desfraguementadas de uma recordação já intelectualizada e não pura. Tu dizias: "Tão depressa não! Ainda te magoas!", mas eu era obstinada e fazia-te correr, o mais que conseguias e podias, seguias-me cegamente, porque temias por mim e eu aproveitando-me disso, levava-te a todos os meus recantos.
Quando eramos pequenos, parávamos sempre junto ao poço, com os teus 3 anos de avanço, ganhavas-me em altura, pegavas-me ao colo (tinhas medo que caísse) e com os seixos com que enchias os bolsos das calças, lançavamo-los de uma vez só, diziamos que era a chuva a cair... Escotando os sons do mundo submerso, tão nossos como alheios, eramos felizes!

domingo, setembro 09, 2007

La valse d'Amélie


A tez de ébano que te sorri e se aproxima lentamente..sentes a melodia tocando "fortíssimo" no teu coração, porque o tempo é apenas "pianíssimo", absorto naquela miragem de Deuses, naquele esplendor roubado à lua. E um beijo que vem, quase inesperado, com as estrelas em testemunha. Um beijo na candura de uma bonina em flor...Ela que sorri, encostando-se em teu peito e sentes a imponência frente à vida! Ali, agora és a terra que alimenta as magnólias com que a confundes, és a brisa que brinca nos seus cabelos negros, és a fragância que a embebe...A serenidade que te faz amar, amar tanto!E, de repente, um sussuro tímido, que te diz: "Também te amo!".
Eu sei...



SE ESTE FOSSE O TEU ÚLTIMO DIA NA TERRA, COMO GOSTARIAS DE O "GASTAR"?

sábado, setembro 08, 2007

Quem se vê. Quem não se vê.




A diferença está em que uns se enxergam demais e outros simplestemente não o fazem!


Há quem apenas contemple o ego e quem aprecie a globalidade do EU e do OBJECTO.
O acto de "conhcer", o sujeito cognoscente e o objecto cognoscível, aquele que invade o outro, o que conhece e o que deixa conhecer, a imagem consciênte que se cria um no outro, são apenas passos que,ordinariamente, não são cumpridos. Porque o comum é sucumbirmos ao víros que desfraguementa, danifica e, por fim, elimina uma ou todas as etapas. Somos estranhos! estranhos jobilosos, estranhos melancólicos...gente que deambula com suposto rumo (sem rumo, meus caros!), para onde nos possam olhar de frente, queremos achar no olhar de quem nos vê (de quem julgamos ser capaz de nos ver, assim é melhor...) a forma pictórica que oferecemos ao mundo como ID. São pontes que lançamos! Pequenos gestos, por vezes incompreendidos, que nos tornam mais fortes e menos hesitantes. De repente, somos Davi que enfrenta o colossal Golias! A vida que seja, enfrentamo-la de peito e semblante erguido.
Milagres!(pois sim, na nossa candura.). Mas, também não são braços que APENAS se unem; em vez disso, IMPORTANTES corações que batem em uníssono e vozes que se entendem e se reconhecem no chinfrim de tantas vibrações (são timbres e alturas, intensidades, todas elas diferentes), rostos que se identificam na consciência eterna da memória e na precariedade do real. Aqui e ali: um só!
E, contudo, há ainda quem não se reconheça no olhar de ninguém; alamas solitárias que vagueiam como fantasmas, em jardins coloridos por quem se vê. E não se fazem ouvir, nem com o grito mais sonoro; e não se fazem entender, nem com a retórica mais delicada; e não se fazem gostar, nem com o mais terno dos abraços. DESVANECEM-SE, pura e simplesmente! Vão amolgadas e esburacadas por quem as pisa e não as vê...

O Sésamo


Era uma vez uma criança,
Um rapaz, na idade da esperança,
Brindado com o dom de sonhar,
Fazio-o sem parar.


Ouvira contar uma história prodigiosa,
Na qual queria participar...
Partira então para o infame Monte da Forca.
Chamejando o seu coração,
Aliciando a imaginação.


De lá gritara três vezes,
Três vezes gritara:
-Abre-te, Monte da Forca!


O Monte permanecera ocioso, na inércia da Natureza,
Arreado pelo chão,
Estropiado pela imaginação,
Por lá continuara cerrado.


O pequeno chorara, com o tormento da desilusão...
O anátema do seu sonho,
A realidade asquerosa,
Rebelara a maldita imaginação.


Ao longe o balido de uma ovelha,
Um novo ser brindava o mundo,
Era tempo de encoirar as mágoas,
Lograr o prodígio da vida.


Este poema foi escrito por mim, três anos antes, quando tive a ocasião de ler o conto do Miguel Torga: "O Sésamo".
Agora aprendi que, entre centenas de outras coisas, não sei escrever poemas...nem me atrevo. Sou comumente desajeitada e devia-me deixar de escrever de todo!

domingo, setembro 02, 2007

Pequininas partes da nossa realidade!

Oiço-te. Seguro-te a mão. Abraço-te. Digo que gosto de ti.
Oiço-te. Seguro-te a mão. Abraço-te. Digo que gosto de ti.
Oiço-te. Seguro-te a mão. Abraço-te. Digo que gosto de ti.

Tu gritas por ajuda. Deixas que te segure a mão. És abraçada. Ouves dizer-me que gosto de ti.
Tu gritas por ajuda. Deixas que te segure a mão. És abraçada. Ouves dizer-me que gosto de ti.
Tu gritas por ajuda. Deixas que te segure a mão. És abraçada. Ouves dizer-me que gosto de ti.

TU GRITAS POR AJUDA! NÃO DEIXAS QUE TE SEGURE A MÃO! NÃO QUERES SER ABRAÇADA! NÃO ACREDITAS QUE GOSTEM DE TI!

TU GRITAS POR AJUDA (PONTO).